Mais
da metade da nossa população é constituída por crianças, e nessa grande
população constamos uma incidência de estresse infantil bastante elevada.
O Brasil, país emergente no cenário mundial, em constante
desenvolvimento transforma-se em um fator ambiental de grande relevância no
crescente aumento das taxas de estresse.
A
realidade é que a estrutura familiar moderna leva a uma diminuição do tempo de
interação entre pais e filhos, e empurra os pais para um sistema de
autocobrança e, ao mesmo tempo, de cobrança excessiva da criança, como se os
pais procurassem compensar o tempo gasto fora de casa com uma maior intensidade
criada em torno de expectativas de grandes resultados.
Se,
algumas décadas atrás, a criança iniciava sua escolarização por volta dos 7
anos, hoje, o contato da criança com o meio externo ocorre muito mais
precocemente, por intermédio da creche, dos jardins-de-infância e da pré
escola. Evidentemente, esse novo sistema traz inúmeras contribuições
pedagógicas à criança, que se socializa mais cedo, interage mais precocemente
com outras crianças e desenvolve suas habilidades de forma mais produtiva,
porque, acima de tudo, é mais bem e muito mais estimulada.
No
entanto, a precocidade da relação entre criança e meio ambiente pode provocar,
algumas vezes até por desvios pedagógicos familiares ou escolares, um sistema
de cobranças excessivas, as quais podem se transformar em elementos geradores
do estresse infantil: ter de submeter-se a horário para acordar, brincar,
alimentar-se, dormir é uma novidade que, quando imposta de uma forma não
absolutamente natural, provoca ansiedade e estresse muito cedo na vida
infantil. Principalmente mães que trabalham fora- cobram de seus filhos
carinho, desempenho e bom comportamento com mais intensidade e com menos
naturalidade, desencadeando inconscientemente mais estresse.
Outras
situações também podem desencadear estresse na criança, como doenças,
hospitalizações e perdas diversas. Crianças que necessitam ser internadas em
decorrência de problemas de saúde, que são submetidas a procedimentos muitas
vezes dolorosos e que, além disso, precisam manter-se afastadas de seu ambiente
cotidiano, de sua família e de seus amigos, desenvolvem alto grau de ansiedade
e estresse.
O estresse
não é, em si mesmo, uma doença, mas quando intensa ou prolongada, a reação ao estresse
pode enfraquecer o organismo, levando-o a uma condição que propicia uma queda
no funcionamento do sistema imunológico de tal porte que vários sintomas e
doenças podem manifestar-se.
Ele
pode manifestar-se tanto no corpo como na mente. Quando uma pessoa esta sujeito
a uma tensão muito grande, ela pode manifestar doenças que já ocorreram na
família e para as quais tenha predisposição genética. O estresse “procura” um
órgão mais enfraquecido ou mais vulnerável, para nele se manifestar. O estresse assume a face de quem o tem.
Enfim,
durante todo o desenvolvimento intelectual, emocional e afetivo, nossas
crianças se confronta com momentos em que a tensão de sua vida alcança níveis
muito alto, às vezes ultrapassando sua capacidade ainda imatura para lidar com
situações conflitantes. Se os adultos a seu redor responderem ás tensões da
vida com ansiedade e angústia, a criança aprenderá a agir assim também. Mais
tarde, quando confrontada com fatores causadores de estresse, ela terá a
tendência imediata para se sentir angustiada e ansiosa.
Em
muitas ocasiões, a criança que não aprendeu a lidar com o estresse poderá
tornar-se um adulto fragilizado, altamente vulnerável ao estresse e,
consequentemente, uma pessoa que poderia ser considerada de alto risco com
relação á aquisição de várias enfermidades cuja origem é o estresse, mas mesmo
as crianças mais sensíveis podem aprender estratégias para enfrentar
tensões. Essas estratégias ajudam a reduzir a probabilidade de virem a
ter problemas ligados ao estresse.
É
fundamental, portanto que os pais ensinem a seus filhos como lidar com a
tensão. Porém muitas vezes isso se torna difícil quando estes pais também não
sabem como enfrentar o estresse, pois eles próprios sofrem suas consequências.
O que temos visto é que pais estressados, geralmente, têm filhos estressados,
por serem um exemplo negativo.
É
fundamental, nesta perspectiva, que profissionais da área da saúde, assim como
toda população, estejam alertas para o fator ambiental como gerador de estresse,
fato cada vez mais presente na vida moderna.
E QUANDO O ESTRESSE ATINGE NOSSO FILHO?
Naturalmente,
se já é difícil aceitar a ideia de que uma criança esta estressada, isso se
torna muito mais difícil quando a criança em questão é nosso filho. A sensação
de culpa, de responsabilidade trona-se tão grande que, sem querer, a maioria
dos pais tentam ignorar os indícios do estresse em seus filhos.
Na realidade, os pais não deveriam sentir-se
tão culpados quanto ao estresse dos filhos, porque os possíveis erros
involuntários que cometem na educação deles não os tornam nem culpados nem maus
pais. Todos erramos, e considerando que não se faz um curso sobre como ser pai
ou mãe adequados, torna-se natural que cometamos alguns enganos. O importante é
ter sempre a intenção de acertar e, se os erros forem cometidos, que se tente
solucionar o problema, minimizando os efeitos negativos do que aconteceu.
Uma
boa notícia é que o tratamento do estresse pode reverter a maioria dos casos de
distúrbios provocados pelo excesso de tensão emocional. Deve-se ter cuidado,
porém, para que o tratamento trabalhe na causa e não apenas nos sintomas do estresse.
É
necessário ajudar a criança a entender o que se passa com ela e a desenvolver
estratégias mentais para lidar com os fatores conflitantes e
difíceis de sua vida. Tratar o sintoma alivia o desconforto atual, preserva a
saúde e permite uma qualidade de vida
melhor, mas não ensina a criança a lidar com a futuro. Em outras ocasiões, ela
precisará saber lidar com o estresse cada vez maior o que significa crescer e
entrar no mundo do adulto. Se não aprender um modo adequado de lidar com a
vida, a criança vulnerável ao estresse será também um adulto vulnerável.
Considerando
que a criança estressada será, muito provavelmente, um adulto estressado
torna-se muito importante tratar o estresse na infância ou na adolescência, não
somente a fim de preservar a saúde e o bem estar nessa fase especial da vida,
mas também para garantir uma sociedade com adultos mais capazes, mais bem
ajustados e mais resistentes as inúmeras batalhas e dificuldades que a vida nos
traz, principalmente em um pais em desenvolvimento como o Brasil. Quando o estresse
é tratado adequadamente, a criança- mas também o adulto- pode desenvolver meios
para lidar com as tensões e os desafios de modo positivo e pode até aprender a
usar o estresse a seu favor.
(referências
do livro: Crianças estressadas. Causas,
sintomas e soluções. Lipp, 2008)
Continuarei
a publicação trazendo contribuições sobre as fontes de estresse na criança
sejam elas interna ou externas, os sintomas do estresse e como ajudar.
Texto de Jandira dos Anjos Alencar.
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